quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

A lágrima


Guerra Junqueiro


Manhã de junho ardente. Uma encosta escavada,
Seca, deserta e nua, à beira d'uma estrada.

Terra ingrata, onde a urze a custo desabrocha
Bebendo o sol, comendo o pó, mordendo a rocha. 

Sobre uma folha hostil duma figueira brava,
Mendiga que se nutre a pedregulho e lava, 
A aurora desprendeu, compassiva e divina,
Um lágrima etérea, enorme e cristalina. 
Lágrima tão ideal, tão límpida, que ao vê-la, 
De perto era um diamante e de longe uma estrela.
Passa um rei com seu cortejo de espavento,
Elmos, lanças, clarins trinta pendões ao vento. 
"No meu diadema, disse o rei, quedando a olhar, 
Há safiras sem conta e brilhantes sem par, 
Há rubis orientais, sangrentos e doirados, 
Como beijos d'amor, a arder, cristalizados. 
Há pérolas que são gotas de mágoas imensas,
Que a lua chora e verte, e o mar gela e condensa. 
Pois brilhantes, rubis e pérolas de Ofir, 
Tudo isso eu dou, e vem, ó lágrima, fulgir
Nesta coroa orgulhosa, olímpica, suprema, 
Vendo o Globo a teus pés do alto do teu diadema!"

E a lágrima celeste, ingênua e luminosa,
Ouviu, sorriu, tremeu, e quedou silenciosa.

Couraçado de ferro, épico e deslumbrante,
Passa no seu ginete um cavaleiro andante. 
E o cavaleiro diz à lágrima irisada:
"Vem brilhar, por Jesus, na cruz da minha espada!
Far-te-ei relampejar, de vitória em vitória, 
Na Terra Santa, à luz da Fé ao sol da Glória!
E a volta há de guardar-te a minha noiva, ó astro,
Em seu colo auroreal de rosa e de alabastro. 
E assim iluminarás com teu vivo esplendor
Mil combates de heróis e mil sonhos d'amor!"

E a lágrima celeste, ingênua e luminosa
Ouviu, sorriu, tremeu, e quedou silenciosa. 

Montado numa mula escura, de caminho,
Passa um velho judeu, avarento e mesquinho. 
Mulas de carga atrás levavam-lhe o tesoiro:
Grandes arcas de cedro, abarrotadas d'oiro.
E o velhinho andrajoso e magro como um junco,
O crânio calvo, o olhar febril, o bico adunco, 
Vendo a estrela exclamou: "Oh Deus, que maravilha!
Como ela resplandece, e tremeluz, e brilha!
Com meu oiro de montão podiam-se comprar 
Os impérios dos reis e os navios do mar,
E por esse diamante esplêndido trocara
Todo o meu oiro imenso a minha mão avara!"

E a lágrima celeste, ingênua e luminosa,
Ouviu, sorriu, tremeu, e quedou silenciosa.

Debaixo da figueira, então, um cardo agreste,
Já ressequido, disse à lágrima celeste:
"A terra onde o lilás e a balsamina medra
Para mim teve sempre um coração de pedra
Se a queixar-me, ergo ao céu os braços por acaso,
O céu manda-me em paga o fogo em que me abraso.
Nunca junto de mim, ulcerado de espinhos
Ouvi trinar, gorjear a música dos ninhos.
Nunca junto de mim ranchos de namoradas
Debandaram, cantando, em noites estreladas...
Voa a ave no azul e passa longe o amor,
Porque ai! Nunca dei sombra e nunca tive flor!...
Ó lágrima de Deus, ó astro, ó gota d'água, 
Cai na desolação desta infinita mágoa!"

E a lágrima celeste, ingênua e luminosa
Tremeu, tremeu, tremeu...e caiu silenciosa!...

E algum tempo depois o triste cardo exangue,
Reverdecendo, dava uma flor cor de sangue, 
Dum roxo macerado, e dorido, e desfeito, 
Como as chagas que tem Nosso Senhor no peito...
E ao cálice virginal da pobre flor vermelha
Ia buscar, zumbindo, o mel doirado a abelha...


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